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Zero

O símbolo vermelho pichado na parede estava virado. Era como eu conseguia enxergá-lo com meu rosto colado no chão e minha visão turva, quase se apagando. Alex costumava pichar aquele símbolo cidade afora, por cima dos cartazes de recrutamento dos sindicatos. Era um zero cortado na diagonal.

Eu nunca soube exatamente o que aquele zero significava. Alex era fechado e embora me amasse muito como sua irmã mais nova, nunca me contou pelo o que exatamente ele lutava. Quando encontrei armas de fogo e tijolos de cocaína em seu quarto, tive uma ideia do que seria. Mas aquilo deixou de ser tão “revolucionário” pra mim. Alex era um herói que aos poucos se transformava em um vilão no meu imaginário juvenil.

Ali, o frio do chão não me deixava ficar desacordada. Logo logo eu retornaria ao meu estado de alerta, percebendo que as paredes da ala sul foram destruídas pela explosão e,  junto com elas, abriu-se uma saída na minha cela. A única coisa que me impedia de fugir eram uns duzentos quilos de blocos de pedra amassando meu peito contra o chão. A dor era quase imperceptível, quando sobrepujada pela queimação que corria em todas as partes do meu corpo, desde a unha do dedão do pé até as pontas dos fios de cabelo. Era como se cada célula do meu corpo estivesse entrando em combustão, mas eu sabia que não iria morrer. Não naquele dia.

A poeira já começava a baixar e já conseguia ouvir um falatório e escombros sendo revirados. Em breve os seguranças da Corsus estariam ali, com o Corpo de Bombeiros e um monte de cientistas procurando por cobaias sobreviventes. Pelo menos o barulho das máquinas zumbindo ao meu redor e a sensação das agulhas perfurando meus olhos cessaram. Mas eu não voltaria mais aos testes. Eu precisava fugir.

Cambaleante, percebi que algo havia mudado. Os experimentos não fizeram efeito até agora porque faltava um detalhe importante: A pequena morte. Não era bem como uma gozada, mas como morte de verdade. Eu chamava assim porque era mais agradável do que EQM. Siglas deixam tudo mais complicado e eu aprendi isso durante anos aqui dentro. Existe uma sigla e uma numeração pra tudo nesse centro de pesquisas.

Era eu, ou o mundo que estava diferente? Tudo parecia mais nítido, mais intenso. Cada som era como se fosse um trovão e minha cabeça parecia que ia explodir a cada gota que pingava da tubulação destruída na parede. As luzes de emergência vermelhas e rodopiantes, eram suficientes para me fazer enxergar até os menores grãos de concreto. E eu poderia até contá-los um a um numa fração de segundos se eu quisesse. De certa forma eles conseguiram. Eu morri, voltei e agora estou aqui pra fazê-los se arrepender de ter me mantido presa por cinco anos nesse circo de horrores.

Não. Não precisava ser naquele dia. Eu nunca havia matado ninguém e nem sabia se conseguiria fazê-lo. Qualquer que fossem estes dons que incandesciam em mim, pareciam fortes demais para serem controlados. Eu não sabia o que ou como aconteceria, mas seria devastador. Foi então que me levantei. O bloco de concreto sobre meu peito parecia bem mais leve, talvez como isopor. Não rolava clima pra piadas, mas pensei em estar numa cena de filme com aquelas pedras cenográficas. A porta – ou o que restou dela – era de aço, mas foi arrombada com uma pancada, sendo arrancada e lançada na minha direção. Eu vi tudo em câmera lenta, o que me permitiu desviar com facilidade antes que ela batesse na parede atrás de mim, derrubando o que restava da ala sul e da minha cela.

Engraçado. Notei como meu senso de humor se aguçou tanto quanto meus sentidos. Sorri quando o cabelo louro de Protetore piscava em tons de vermelho sob as luzes de emergência. Por um instante ele exitou, estupefato por me ver sorrindo. Talvez porque todos se borravam quando viam aquele homem todo, cheio de músculos, com colã preto e capa vermelha. “Colã”… Eu ri novamente.

— Você vem comigo, moça.

A voz era exatamente como naqueles comerciais de recrutamento do Domo. Imponente e grave, como se ele enchesse o peito para o som ecoar melhor no ambiente.

— Olha, gato… — Eu falei rindo, como se debochasse do rapaz, mas não foi intencional (juro). — Eu até iria com você se a gente se conhecesse primeiro e tal, mas eu não tenho tempo pra um encontro agora. Eu preciso…

Enquanto eu falava com a minha mão direita apontando para trás, seus olhos incandescentes arrancaram-na sem remorso. E isso pareceu apenas um aviso. Seu olhar se apagou aos poucos quando, em fração de segundos, o raio ocular se dissipou, deixando apenas um cotoco cauterizado na altura do meu punho. A mão separada caiu no chão, ainda com o dedão levantado, como se me desse um “joinha”. Não houve dor, apenas desespero embora aquilo tenha sido engraçado. Eu quis fugir e descobri que ele não podia me alcançar.

Alex, seu filho da puta. Tentou me libertar, mas morreu na explosão do centro de pesquisas da Corsus. Hoje eu sei o que aquele zero cortado significa, pelo menos pra mim.

É engraçado. Rs.

 


Oddcell é um universo de RPG que aborda um planeta Terra em 2048, devastado por uma guerra nuclear sob resquícios de um vírus que transformou pessoas comuns em seres dotados de poderes inimagináveis. Acompanhe o site e fique por dentro das novidades. oddcell.com.br

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